sábado, 12 de abril de 2014

O Stradivarius


Stradivarius é o nome que se dá a instrumentos de cordas, particularmente violinos, fabricados entre os anos finais do século quinze e o princípio do século dezesseis por membros da família italiana Stradivari. O membro Stradivari mais reconhecido é Luthier Antonio Stradivari, cujos violinos, de excepcional qualidade de som, hoje costumam valer até centenas de milhares de dólares em leilões. Estima-se que ainda existam em torno de 600 exemplares dos mais de 1100 que foram fabricados entre 1664 e 1737, e é uma prova não só da qualidade dos instrumentos, mas de sua longevidade também.
A qualidade do som produzido por um legítimo Stradivarius é, segundo músicos e fabricantes de instrumentos de corda, decisivamente irreprodutível em nossa época, embora a tecnologia e os materiais mais variados estejam à disposição dos que se dedicam a esse mister, qual seja, reproduzir um “clone” ou um “cover” do tal instrumento.
Sabe-se que as madeiras mais usadas na confecção de instrumentos como violas, violões e violinos são abeto, bordo, ébano e salgueiro, todas ainda disponíveis em nosso tempo. O tampo superior desses instrumentos, quando de qualidade, é feito de abeto. O bordo, usa-se para o tampo inferior, as laterais e o braço. E a estrutura toda é reforçada por dentro com salgueiro. Por último, nas cravelhas e no ponto utiliza-se ébano cuja densidade é maior que um, isto é, afunda na água. Nada misterioso, portanto.
Então, neste mundão velho de guerra muitos, mas muitos mesmo, fabricantes de instrumentos se dedicam, há décadas, em refazer ou reproduzir um Stradivarius com seu som inimitável, sem sucesso. As mesmas dimensões, o mesmo desenho, o mesmo verniz, as mesmas madeiras, até aproximadamente as mesmas colas e mesmas técnicas de fabricação têm sido usadas, mas os resultados não estão a altura do dispêndio de energia e talento imitativo empregados. Talvez desde a colheita da madeira; do local em que eram selecionadas as árvores; a idade das árvores,; a maneira com que a madeira era posta a secar; o tratamento à sombra que essa matéria prima era submetida. Muito há a ser descoberto sobre os métodos de envergar as tábuas; manejar as prensas, outras ferramentas etc. Há certo mistério, há algo que se perdeu nos desvãos do tempo, há algo irreprodutível num legítimo Stradivarius. De certa forma está explicado porque tais instrumentos são tão cobiçados e tão caros.
O fato é que se alguém for detentor de um Stradivarius, mesmo danificado pelo tempo, está com burro na sombra, isto é, está de posse de uma possível pequena fortuna.
Pois então, nos meus verdes vinte e dois anos de idade, morei numa casa de “pensão para rapazes solteiros” em Canoas no Rio Grande do Sul. Era o que costumavam chamar de república de estudantes, embora poucos fossem os moradores estudantes, a maioria era de empregados na indústria e comércio, e militares de baixa graduação solteiros, vivendo longe de seus núcleos familiares. No Casarão em que vivíamos – que era um decrépito casarão assobradado bem antigo – existia um porão meio sombrio e quase inabitável, onde a dona do pensionato guardava tralhas. Desde colchões e camas a serem utilizados nos quartos, até alguns móveis e baús velhos cheios de coisas imprestáveis.
Num ensolarado sábado de manhã, dona Custódia – que esse era o nome da senhoria – pediu que eu e mais dois membros da comunidade a ajudassem a limpar um pouco o porão e a jogar alguma coisa fora. Na azáfama de revolver aquele quase entulho íamos perguntado à dona Custódia o que se poderia jogar fora e o que não. Ao abrir um dos baús que continha algumas roupas roídas por traças, um candelabro de sete braços (menorah?) e outros bagulhos, encontrei um violino bem velho, meio danificado, sem cordas e sem arco, mas com certos ares de nobreza decadente.
 - Dona Custódia de quem é esse violino?
Ela me informou que o instrumento havia chegado da Europa quase cem anos antes e que pertencera a uma ancestral (avó, talvez?) sua que o tinha herdado do pai dela que era um músico judeu de certo talento. E mais não disse.
- A senhora tem algum interesse em guardá-lo ou também será descartado?
- Não vê que é apenas um traste inútil sem valor algum? Jogue-o no lixo.
-Posso ficar com ele?
-Pode, mas não sei o que de bom lhe trará guardar esse instrumento que nem se você soubesse tocá-lo serviria para alguma coisa, leve-o! Isso é lixo!
Em 1968 saí de Canoas porque passei para uma escola militar em Guaratinguetá no estado de São Paulo. Daí que meu maltratado violino, sem arco e sem cordas, acabou sendo levado para Palmeira onde moravam meus irmãos. Ficou num sótão por uns tantos anos até que um dia lembrei dele e o trouxe para minha casa em Florianópolis. Encontrava-me casado e morando em Floripa. O violino fez parte da decoração da casa até alguns dias atrás. E, devo dizer, sempre gostei muito daquela peça antiga, não sei porquê.
Agora em 2014, vendo um documentário no History Channel, descobri que um Stradivarius autêntico possui algumas características internas – marcas sutis, na verdade, - que o distinguem de quaisquer imitações ou cópias posteriores. Seguindo as dicas do programa, peguei meu violino da prateleira e, minuciosamente, até com uma lupa e um espelhinho, observei todos os pontos que deveriam ser descobertos para constatar se é uma das maravilhas da genialidade humana, ou uma fraude.
Estou mesmerizado e incrédulo até agora com o que vi... Não tenho mais nada a dizer...
De um lugar qualquer do Planeta, 30 de Março de 2014.

JAIR.

8 comentários:

Tais Luso disse...

Parou logo agora? Não contou mais! Você tem um Stradivarius?? Nossa... e não sabia!
Que história fantástica, os melhores violinos do mundo!
Que bom que voltou a esse blog!São histórias muito curiosas que você posta aqui.
Abraços!

Alma Inquieta disse...

Olá Jair!

Obrigada por partilhar essa bela história acompanhada da fotografia dos protagonistas.

Um beijo e feliz Semana Santa.

Cristiano Marcell disse...

Ai caramba...é, ou não é um Stradivarius autêntico????

Leonel disse...

Pelo que vejo, meu amigo é o feliz proprietário de um instrumento de valor apreciável, que lhe caiu no colo graças ao desinteresse da velhinha, que o classificou de lixo!
Em boa hora fostes ajudar na limpeza do tal porão, do contrário esta peça rara estaria agora decomposta e enterrada em algum aterro sanitário!
Bom te ver de volta, Jair!
Abraços!

Regina Ragazzi disse...

Uma relíquia, um tesouro,e uma boa poupança que vc fazia sem saber né Jair!?? rs. Ótimo texto.Abraços!!

São disse...

E que viu ? O segredo do fabrico desses famosos violinos? rrsss

Viva o 1º de Maio e saudações para si

Anônimo disse...

Pô cabo velho, quero saber o final, é ou não é.
Abração

Fabio

Anônimo disse...

Muito bom!

Gus